O momento é de repensar tudo

Com o surgimento do Covid19, que se transformou em uma pandemia, o mundo ficou de cabeça para baixo. Não é preciso relatar aqui o impacto que isto provocou no setor de couro e calçados, pois todos estão sofrendo as consequências da paralização das atividades industriais e comerciais. Neste momento, com o comércio voltando a abrir as portas, e as indústrias que ainda não sucumbiram trabalhando em ritmo defasado, é preocupante o futuro próximo. Quem reabriu está apenas produzindo para o que sobrou na carteira de pedidos e/ou para produzir estoque a partir da matéria prima que estava comprada e disponível na empresa.

Em todo o mundo a situação não é diferente. Apenas que na China ocorreu por primeiro e as indústrias já voltaram a trabalhar, mas com uma redução muito grande de pedidos, pois os mercados americano e europeu suspenderam a maior parte de suas compras. Na Europa a situação começa a se normalizar gradualmente, com os países mais atingidos como Itália, Espanha, Alemanha, França e Inglaterra preocupados com uma possível segunda onda do vírus. Na América Latina a situação ainda é crítica e não sabemos quando começará a reverter. Na verdade, enquanto não surgir uma vacina e ela possa ser distribuída para todo o mundo, nada voltará à normalidade.

O comércio on line é muito importante, mas nos níveis atuais não tem a mínima chance de sustentar todo o parque industrial do país. Contudo, este é um canal de comercialização que deve ser introduzido ou ampliado por todas as empresas. As vendas pela Internet são uma tendência que se intensificou agora durante a pandemia e que deverá evoluir muito mais rapidamente do que vinha acontecendo.Por outro lado, se as lojas físicas não voltarem a comercializar logo,haverá ainda mais desemprego e muitas empresas irão falir. Quanto mais tempo as restrições ao comércio forem ampliadas, mais dificuldades as indústrias terão de retomar suas atividades normais. Certo é que todas deverão encolher significativamente. Calculo que as que menos reduzirem, encolherão pelo menos 30%.

Se antes falávamos em reduzir custos e melhorar a eficiência para tornar a empresa mais competitiva, hoje dizemos que este caminho é obrigatório para a empresa simplesmente manter-se viva. Todas as medidas que relutamos em adotar antes para tornar a empresa mais competitiva por serem duras, amargas, muito impactantes, hoje devem ser reavaliadas. Com quase toda a certeza deverão ser implementadas já, com todo o cuidado e planejamento que permita a assertividade dos resultados.

Contudo, toda esta situação, todos estes acontecimentos e privações que estamos vivenciando deve servir para sairmos mais fortes ou, no mínimo, menos debilitados. Devemos aprender com mais esta crisede proporções antes inimagináveis. Assim como uma guerra traz muito sofrimento, escassez, privações e um grande repensar de tudo, este momento se assemelha muito a um período de conflito bélico. Desta forma muitos conceitos, objetivos, paradigmas e práticas devem ser questionados.

O mundo será muito diferente após superarmos este momento crítico provocado pela pandemia do Covid19. Pelo menos para uma boa parte da população mais consciente, mais madura e esclarecida. Teremos reflexões importantes que deverão orientar o consumo futuro, levando em consideração a origem dos produtos, a fonte das matérias primas, a forma que são produzidas e a confiabilidade das marcas. O fast fashion perderá espaço para um consumo mais consciente, onde os produtos deverão ter vida útil maior. As pessoas deverão dar mais valor para marcas e produtos sustentáveis do que já vem ocorrendo.

Claro que uma grande parcela dos consumidores irá comprar levando em consideração apenas o preço. Ainda mais com a grande massa de trabalhadores que se somou ao índice já existente de desempregados antes da quarentena decretada pelos governantes. Estas pessoas, com as finanças muito debilitadas, irão adquirir somente itens de primeira necessidade como comida e algumas peças de vestuário, incluindo calçados. Tudo o mais poderá passar a ser supérfluo.

Mas outra consequência que imagino deverá ocorrer é o retrocesso da globalização. Não sei em que nível, mas as pessoas passarão a viajar menos, a realizar negócios prioritariamente de forma virtual e intensificar o turismo doméstico. Poderá ocorrer inicialmente uma aversão a produtos oriundos da China. Já se percebe uma significativa manifestação deste fenômeno nas redes sociais. Se isto irá se transformar em ações concretas, só o tempo dirá. Mas talvez esta nova possível realidade traga uma grande oportunidade para o calçado colombiano nos mercadosdos EEUU e da União Europeia.

O setor de calçados e bolsas, apoiado pelas instituições de fomento do governo federal, poderia iniciar uma campanha neste mercados promovendo os produtos fabricados no país, ressaltando a qualidade dos produtos, a proximidade geográfica com os países compradores, a similaridade cultural e a confiabilidade dos negócios. Seria um excelente momento para voltar a atenção dos consumidores americanos e europeus para os produtos colombianos, retomando ampliando consideravelmente os volumes exportados para estes países. E o câmbio nunca esteve tão favorável, ajudando na internacionalização dos produtos colombianos.

Autor: Luís José Coelho